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As características que definem a forma simpléctica, numa variedade \(M\), são: o fecho, a antissimetria e a não-degenerescência. As 2 primeiras propriedades são ambas fundamentais, e em particular intervêm da seguinte forma: para o teorema de Darboux e para o estabelecimento de uma álgebra de observáveis através dos parêntesis de Poisson. A antissimetria origina propriedades conservativas, que se estendem às formas degeneradas. A não-degenerescência pode ser enfraquecida por forma a estabelecermos as boas propriedades em casos mais gerais.
Vamos estudar primeiro brevemente a importância da não-degenerescência.
Definimos o mapa linear \(\omega^b:E\to E^*\) \((TM\to T^*M)\) por \(\omega^b(e)\cdot e'=\omega(e,e')\), então \(\omega^b(e)=\iota_e\omega\) e \([\omega^b]=[\omega_{ij}]\). A não-degenerescência de \(\omega\) implica que o núcleo de \(\omega^b\) é trivial; portanto \(\omega^b\) é injectiva e como estamos a tratar com espaços de dimensão finita, \(\omega^b:E\to E^*\) é sobrejectiva e por fim é um isomorfismo.
Logo determina um campo vectorial \(X_g\) através da condição:
Se o observável \(g\) não depender explicitamente de alguma variável, teremos
Por exemplo:
Para podermos estabelecer uma álgebra de observáveis temos que eliminar este excesso de campos possíveis. No nosso exemplo o núcleo de \(\omega\) é todos os vectores da forma \((0,0,X(u,y,z))\), ou seja \(X(u,y,z)\dfrac{\partial}{\partial z}\).
Estes vectores aplicados ao observável \(g\) determinam superfícies, linhas neste caso, em que \(g\) é constante:
Logo se dispusermos de outro observável, também constante ao longo de \(z\), teríamos \[ \langle X_g,f\rangle=-X_f g=0, \] pelo que os parêntesis de Poisson estariam bem definidos. Para definir os parêntesis vamos então considerar apenas os vectores perpendiculares a estas linhas, uma vez que \(f\) e \(g\) dependem apenas de \(x\) e \(y\).
Pensemos agora a geometria diferencial:
\(\omega^b\) é um smooth vector bundle mapping e determina uma submersão de \(TM\). Segundo o exercício 1.6F c) de Abraham, se \(\omega\) tiver rank constante \(k\), condição necessária para definirmos a nova álgebra, então \(\ker\omega\) é um subfibrado de \(TM\), chamemos-lhe \(E\). Um subfibrado é quando a base é a mesma mas as fibras são menores.
Então, segundo o Teorema de Frobenius, \(E\) é integrável se e só se surge de uma foliação regular.
Vamos provar que \(E\) é integrável: se \(X,Y\in\ker\omega\), resta verificar que \([X,Y]\in\ker\omega\).
Tem que ser \(d\omega=0\), tal como seria de esperar, pois esta é uma condição fundamental para estabelecermos a álgebra.
Então já sabemos que \(E\) surge de uma foliação regular, ou seja:
Convém agora definir foliações, segundo Abraham:
Podemos determinar as folhas através dos observáveis que restam constantes sobre elas: \(f=c_1\), \(g=c_2\), etc.
Agora podemos ver que, se \(df(u)\neq0\), como \(u\in f^{-1}(c)\), então \(c\) é um valor regular de \(f\) e \(f^{-1}(c)\) é uma subvariedade de \(M\) de codimensão \(k\), isto é, a dimensão das folhas é \(n-k\).
\(df(u)\neq0\) é essencial para que, aplicado a \(X\),
não seja trivial e portanto determine os vectores do núcleo de \(\omega^b\), os quais são tangentes às folhas onde \(f\) e \(g\) são constantes.
Assim vê-se que tudo “encaixa” bastante bem.
A fim de estabelecer intrinsecamente a “perpendicularidade” intuída no exemplo linear, só dispomos de uma estrutura a que recorrer, a \(\omega\), uma vez que não temos métrica.
Podemos eliminar os campos indesejáveis estabelecendo uma relação de equivalência em \(TM\) e efectuando o quociente de \(TM\) por essa relação. Dois elementos de \(TM\) são equivalentes se
ou seja, eliminamos todas as componentes segundo a direcção das folhas.
Eliminamos também as folhas. Para tal a relação de equivalência será definida pela constância do observável \(f\) sobre uma folha, ou seja, todos os pontos em \(f^{-1}(c)\), em que \(c\) é um valor regular de \(f\), são equivalentes.
O novo fibrado tangente será \(TM/N\). A sua base é uma variedade simpléctica. Agora já poderemos estabelecer nesta variedade uma álgebra de observáveis com parêntesis de Poisson, transformações canónicas e todas as boas propriedades.
Nota: \(TM/N\) é obtido pela projecção canónica \(M\to M/\mathcal{F}\) e as duas reduções mencionadas acima são obtidas simultaneamente.
Abraham define intrinsecamente uma equação de 2.ª ordem numa variedade \(M\), da seguinte forma:
Antes de prosseguir convém definir as operações envolvidas na definição de equação de 2.ª ordem:
\(\tau_M:TM\to M\) é a projecção do fibrado tangente na sua base, a qual é uma variedade diferencial.
\(T\tau_M:TTM\to TM\) é o mapa tangente entre os fibrados vectoriais \(TTM\) e \(TM\). Um mapa tangente é um caso particular de um vector bundle mapping, ou seja, um mapa \(C^\infty\), fiber-preserving, de pequeno diagrama comutativo, e linear em cada fibra:
A definição inicial significa que, se \(X\) for uma equação de 2.ª ordem em \(M\), temos o seguinte diagrama rômbico comutativo, excepto nos casos que envolvam apenas 2 setas:
Onde, localmente, para uma carta \(\psi\):
Se nos for imposta a seta da identidade temos:
A projecção canónica \(\tau_{TM}\) “achata” as fibras na base \(TM\), enquanto a projecção \(T\tau_M\) projecta apenas a parte “horizontal” da fibra e a base \(M\).
Outro esquema possível:
\(X\) é uma equação de 2.ª ordem em \(M\) se e só se as curvas \(①\) e \(②\) coincidirem.
Efectuamos uma mudança de notações \((\tau_M\circ c)\to c\) e temos para a base integral curve of \(X\), \(c(t)\):
Nós poderíamos ter estabelecido esta igualdade se nos tivéssemos contentado que \(X\) determina a curva \(c'(t)\). Localmente:
pois \(\mu(c'(t))=\mu(c(t))\) por \((\tau_M)\psi:(\mu,e)\mapsto\mu\), de ambos os lados do diagrama rômbico.
Do que já foi dito, torna-se finalmente:
Logo \(X_1(u,e)=e\) para que se verifique a identidade nos diagramas rômbicos.
Então finalmente:
E temos uma equação de segundo grau definida intrinsecamente.
O importante aqui é a equação do movimento em 2.ª ordem, que obtemos em coordenadas locais a partir da nossa definição intrínseca.
Nota sobre \((*)\). Isto significa que, quando se fazem as “passagens” entre \(M\leftrightarrow TM\leftrightarrow TTM\), há um “percurso” único entre \(c\) e \(c''\), tal que