Das corridas de montanha da FPME em 1998 à consagração internacional em dois Campeonatos do Mundo — a história completa de uma modalidade construída de baixo para cima.
A história do trail running em Portugal não nasce de um único momento fundador. Para evitar uma leitura simplista, este documento distingue três genealogias que se sobrepõem no tempo:
Esta distinção permite reconhecer simultaneamente o papel da FPME e dos campeonatos de corridas em montanha, o trabalho pioneiro do Atletismo Clube de Portalegre na Serra de São Mamede, a importância simbólica e organizativa da Ultra Trail Serra da Freita e a projecção internacional introduzida pelo MIUT.
Quando este documento usa os termos "primeiro", "pioneiro", "fundador" ou "mais antigo", esses qualificativos aplicam-se sempre a uma das categorias acima definidas, nunca de forma absoluta. O trail português não nasceu de um único dia; resultou da convergência de múltiplas tradições, comunidades e projectos.
As fontes estão organizadas em oito categorias (I–VIII) e referenciadas no texto pelo sistema [R1]–[R75]. Fontes em conflito ou incompletas são assinaladas como tal. Testemunhos orais e memórias de blog são identificados como tal e não usados como único suporte de factos verificáveis.
"Corridas de montanha" designa o percurso federado e competitivo que antecede o trail moderno. "Provas com DNA de trail" designa eventos em terreno natural que antecipam a linguagem actual. "Trail moderno" designa provas desenhadas com a cultura, distância, autonomia, tecnicidade e experiência territorial que passaram a caracterizar a modalidade na década de 2000.
O presente documento constitui uma análise histórica, cultural, desportiva e científica do trail running em Portugal, desde as suas raízes nas corridas em montanha até à sua consolidação como uma das modalidades de maior crescimento no país e na Europa. Aborda os seus protagonistas, as provas que definiram cada época, as estruturas associativas e federativas, a fisiologia exigida aos praticantes, os aspectos psicológicos e nutricionais, a evolução dos equipamentos e o impacto na cultura desportiva portuguesa.
O trail running é muito mais do que uma corrida. É uma relação com o território, uma forma de descobrir Portugal a partir dos seus trilhos e serranias, e uma comunidade humana construída por pessoas que nunca apareceram nas capas das revistas: organizadores voluntários, arquivistas digitais, treinadores amadores, bloguistas, fotógrafos, famílias e corredores de todas as condições físicas. Este documento procura honrar todos os que, ao longo de décadas, ajudaram a construir esta história — e não apenas os que cruzaram primeiro a meta.
A corrida em terreno natural é o gesto atlético mais primitivo da humanidade. Antes do asfalto, antes das pistas sintéticas, o ser humano corria em terreno irregular por necessidade de sobrevivência. As culturas do pastoreio nas serras da Península Ibérica, os mensageiros das civilizações andina e asteca, os Tarahumara do México (imortalizados no livro Born to Run de Christopher McDougall) são testemunhos desta vocação ancestral. No contexto europeu, as primeiras corridas organizadas em terreno acidentado surgem no século XIX na Escócia e em Inglaterra, sob a forma do Fell Running — corridas sem percurso definido onde os participantes escolhiam o melhor caminho para atingir o cume e regressar.
O trail running como modalidade organizada tem a sua origem contemporânea nos Estados Unidos, nas décadas de 1970 e 1980, com a criação de provas como a Western States Endurance Run (1974) e a Leadville Trail 100 (1983). Em 1996, é fundada a American Trail Running Association (ATRA). Na Europa, foi o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), criado em 2003 por Michel e Catherine Poletti, que catapultou a modalidade para o imaginário colectivo: 170 km pelos Alpes, atravessando França, Itália e Suíça, a prova tornou-se referência mundial e projecto de vida para centenas de milhares de corredores. A International Trail Running Association (ITRA) foi fundada em 2013, criando um sistema global de pontos e classificações. Em 2015, a World Athletics reconheceu oficialmente o trail running como disciplina do atletismo. [R54][R55]
Em Portugal, a relação com a montanha tem raízes profundas. As comunidades serranas do Minho, Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo utilizaram sempre os trilhos como vias de comunicação essenciais. Os pastores do Gerês, as populações das Aldeias do Xisto, os habitantes da Serra da Estrela — todos conheciam os caminhos de montanha como extensões naturais do seu quotidiano. As romarias, as marchas de peregrinação, as festas em santuários de altura criaram uma cultura de deslocação pedestre em terreno natural que, ainda sem carácter competitivo, estabeleceu uma relação cultural profunda entre o português e o seu território. [R6]
A Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), criada em 1945 como Federação Portuguesa de Campismo e que incorporou o montanhismo em 1991, foi a primeira estrutura federativa a organizar actividades em montanha. Os clubes de montanha espalharam-se pelo país, criando redes de praticantes que percorriam serras e trilhos com espírito aventureiro. [R6]
Décadas antes do trail running, os clubes de montanhismo portugueses foram os guardiões dos trilhos. O Clube Desportivo Os Montanheiros (Açores), o Clube de Montanha do Funchal (Madeira), os Amigos da Montanha (Porto), o Clube Celtas do Minho, o Grupo de Montanhismo de Vila Real — entre muitos outros — organizaram marchas e excursões que criaram as raízes culturais de onde brotaria a modalidade. Estes clubes preservavam o conhecimento dos trilhos, ensinavam técnicas de orientação, cultivavam o respeito pelo ambiente e criavam laços sociais duradouros. Muitos dos primeiros trail runners portugueses tinham as suas raízes nestas comunidades.
Em Julho de 2002, um grupo de montanheiros insatisfeitos com a representação da modalidade dentro da FCMP fundou a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME), com missão autónoma de promover e regulamentar as actividades de montanha. [R4]
O pedestrianismo organizado — marchas por trilhos marcados em terreno natural — foi o percursor imediato do trail running. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, multiplicaram-se as marchas organizadas por associações locais, câmaras municipais e clubes de natureza, introduzindo ao grande público o prazer de percorrer trilhos sinalizados. Este fenómeno criou uma cultura de acesso e respeito pelos trilhos e aproximou populações urbanas de territórios rurais que de outra forma permaneceriam inacessíveis.
A transição entre o andar e o correr em montanha pode ser datada com relativa precisão: em 1998, realizou-se a 1.ª edição do Campeonato Nacional de Corridas de Montanha, organizado sob a égide da FPME (então ainda integrada na FCMP). Foi a primeira prova competitiva nacional organizada especificamente para correr em terreno de montanha, distinguindo-se das provas de atletismo de estrada pela tipologia do terreno e pelo desnível acumulado. [R5][R60]
Os resultados da 1.ª edição revelaram talentos como Vitorina Mourato (campeã feminina) e Vítor Cordeiro (vice-campeão masculino), ambos do Atletismo Clube de Portalegre — um clube que seria pioneiro também nas primeiras provas de trail. Vitorina Mourato representa uma geração que correu antes de existir a palavra "trail" em Portugal: atletas das corridas de montanha que, sem o saber, estavam a criar os alicerces da modalidade que viria a seguir.
O Atletismo Clube de Portalegre (ACP) organizou, a 18 de Abril de 1999, o que pode ser considerado o primeiro trail com DNA de trail moderno em Portugal continental: um percurso de 11 km em perfil up-down na Serra de São Mamede, com características de terreno de trail — desnível, trilhos e natureza. Em 2000, o mesmo clube organizou a primeira das jornadas do 3.º Campeonato Nacional de Montanha da FPME, na Serra da Penha. [R11]
Neste mesmo período, a Confraria Trotamontes — uma das mais icónicas organizações de trail em Portugal — ensaiava os primeiros passos em direcção à Ultra Trail da Geira Romana, encontrando na Via Nova Romana o percurso perfeito para uma prova que uniria desafio físico, história e paisagem.
A FPME, autonomizada em 2002, assumiu a tutela das corridas de montanha e o seu Circuito Nacional de Montanha tornou-se a espinha dorsal competitiva das corridas em terreno natural em Portugal. Organizou campeonatos em várias distâncias e criou regulamentação que distinguia as corridas de montanha das provas de estrada. Este trabalho foi essencial para que, quando o trail moderno chegou, houvesse já uma cultura competitiva estabelecida e uma rede de atletas experientes prontos a adoptar a nova linguagem.
A segunda metade da década de 2000 marcou uma inflexão decisiva. Atletas portugueses que tinham participado nas primeiras edições do UTMB ou em corridas como o Grand Raid des Pyrénées ou a Cavalls del Vent regressaram com um conceito radicalmente diferente. O trail running europeu era mais longo, mais técnico, mais exigente — e muito mais sedutor do que as corridas de montanha que praticavam em Portugal.
Entre os pioneiros que trouxeram este espírito, Carlos Sá ocupa um lugar de destaque. Natural de Vilar do Monte (Barcelos), iniciou-se no montanhismo antes de descobrir o ultra trail. Em 2008, estreou-se na Ultra Trail da Geira numa distância de 45 km, ficando em 2.º lugar — uma estreia notável. Em 2009, venceu a mesma prova. Em 2010, conquistou o Grand Raid des Pyrénées (160 km, 20.000 m de desnível), colocando Portugal no mapa mundial do ultra trail. [R22]
"Ver 2000 pessoas a correr 170 km sem parar foi o primeiro passo para começar a olhar para o Trail Running de outra forma. Sentir a liberdade, descobrir novos trilhos e paisagens; tentar ir mais longe, para lá do limite."
— Carlos SáA Ultra Trail da Serra da Freita (UTSF) é a primeira prova de trail running organizada como tal em Portugal continental. A sua história começa em Verdon, no sudeste de França, onde José Moutinho — Grão Mestre da Confraria Trotamontes, sediada em Gueifães (Maia) — participou numa prova que classificou como a melhor da Europa. Nos quatro anos seguintes, percorreu provas em França para aprender o conceito. Juntamente com Sálvio Nora — que viria a falecer e a quem a prova é dedicada — descobriu a Serra da Freita através de um cunhado de Arouca que os levou até às antenas. Em 2006, realizou-se a 1.ª edição: 50 km, Serra da Freita, primeiro trail running organizado como tal em Portugal continental. A logística ficou desde sempre nas mãos de Flor Madureira, que se tornaria a coluna vertebral operacional da Confraria ao longo de quase duas décadas. [R14]
Os percursos de Moutinho tornaram-se famosos pelas suas "moutinhadas" — secções de dificuldade morfológica extrema: o "portal do inferno", os "aztecas", a subida das "escadas do martírio" (mais de 800 degraus em 400 metros). A filosofia era clara: trail não é correr depressa, é ler o terreno.
"A própria confraria começou a agir como se isso fosse uma missão, não olhávamos só para o nosso umbigo. Achamos que o método seria criar células em todo o país com organizações e criar provas para se começar a dinamizar esta modalidade de trail."
— José MoutinhoPercorrendo a Via Nova Romana — a estrada construída pelos romanos no século I d.C. que atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês —, a Ultra Trail da Geira Romana é uma das provas mais singulares do calendário nacional. Os corredores passam por miliários romanos, atravessam ribeiras cristalinas e sobem até às cumeadas do Gerês, percorrendo caminhos que legionários pisaram há dois mil anos. Organizada pela Confraria Trotamontes em articulação com estruturas locais, é um exercício de arqueologia viva. [R15][R20]
O Madeira Island Ultra Trail (MIUT) teve a sua primeira edição em 2008 e tornou-se imediatamente a mais ambiciosa prova de trail running organizada em solo português. Na sua génese esteve um grupo de membros do Clube de Montanha do Funchal — Paulo Perdigão, Noel Perdigão, Nuno Gonçalves, Vítor Sousa, Marcelo Gaspar, Honório Teixeira, Sérgio Perdigão e Sidório Freitas — que desde 2004 tentavam atravessar a ilha em menos de 24 horas. A 1.ª edição contou com 141 participantes na ligação Ponta do Pargo–Machico. O percurso principal, de aproximadamente 115 km com mais de 6.000 metros de desnível, atravessa a laurissilva classificada como Património Mundial da UNESCO e é considerado um dos mais tecnicamente exigentes do circuito europeu. [R10][R12]
Antes das redes sociais, o fórum online "O Mundo da Corrida", mantido por Eduardo Santos, foi o espaço onde a comunidade de trail runners portugueses se encontrava, debatia provas e planeava aventuras. Foi neste fórum que a primeira edição do Ultra Trail de São Mamede foi anunciada e os futuros participantes foram consultados sobre distâncias e datas — um exemplo pioneiro de co-criação de eventos. [R34][R43]
Este ecossistema digital — fóruns, blogs, calendários partilhados — foi crucial para a coesão da comunidade, permitindo que atletas de norte a sul do país se conhecessem virtualmente antes de se encontrarem nas linhas de partida. A plataforma Portugal Running, criada em Março de 2010 com o grupo de Facebook "Marginal à Noite", sucedeu-lhe como principal ponto de encontro da comunidade. [R34]
Entre 2010 e 2016, o trail running em Portugal registou um crescimento sem precedentes. O número de provas que em 2009 não ultrapassava alguns eventos dispersos multiplicou-se por nove até 2015, segundo dados compilados por Carlos Fonseca no seu portal de atletismo e referenciados pela Associação Desnível. Em 2012, contavam-se cerca de 45 provas agendadas no país. Em 2015, este número era de várias centenas. [R41][R43]
Três factores convergiram para este crescimento. Em primeiro lugar, os feitos internacionais de Carlos Sá — a vitória na Badwater em 2013 (217 km no Vale da Morte, o primeiro português a vencer esta ultramaratona), o recorde mundial de ascensão ao Aconcágua (6.962 m em 15h42m) e os top-10 no UTMB e na Marathon des Sables — criaram visibilidade mediática sem precedente. Em segundo lugar, as redes sociais permitiram a formação instantânea de grupos de corrida, a partilha de percursos e a criação de uma identidade visual apelativa: uma fotografia ao amanhecer na Serra da Estrela valia mais do que qualquer campanha publicitária. Em terceiro lugar, a crescente consciencialização sobre saúde e bem-estar tornou a corrida na modalidade democrática por excelência — e o trail acrescentou a esta equação a natureza, a aventura e a profundidade emocional.
Carlos Sá: Badwater 2013 (1.º), Aconcágua record 2013, top-4 UTMB. Visibilidade mediática inédita para a modalidade em Portugal.
Facebook, Instagram, Strava e WhatsApp permitiram grupos de corrida instantâneos, partilha de percursos e criação de uma identidade visual apelativa.
Portugal em crise económica 2010–2015: a corrida como resposta democrática. O trail adicionou natureza, aventura e profundidade emocional.
Em Novembro de 2012, é fundada a Associação de Trail Running de Portugal (ATRP). A Direcção fundadora foi composta por cinco atletas: José Carlos Santos (Presidente), José Bomtempo, José Guimarães, Luís Matos Ferreira e Paulo Jorge. Em 2013, João Mota juntou-se à Direcção. [R1][R31][R32]
José Carlos Santos — atleta de trail desde 1995, sócio n.º 1 e seu primeiro presidente (2012–2015) — foi a figura central desta fundação. Após participar na 1.ª Conferência Internacional de Trail Running em Courmayeur, regressou convicto de que Portugal precisava de uma entidade forte. A sua dimensão internacional — co-fundador e director executivo da ITRA, Selecionador Nacional entre 2015 e 2024 — conferiu desde o início à ATRP uma visão global. José Guimarães, autor do blogue "Ex-Sedentário a Maratonista" e um dos primeiros portugueses no UTMB, trouxe a perspectiva do atleta amador transformado pela corrida. Luís Matos Ferreira, engenheiro e autor do blog dorsal1967, representava a blogosfera e a comunidade de ultra endurance. A ATRP nasceu como representação plural de tudo o que o trail português já era em 2012. [R1][R31][R32]
Em Maio de 2014, a ATRP foi aceite como associado extraordinário da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA). A ATRP criou o Circuito Nacional de Trail (em várias distâncias), a Taça de Portugal e os Campeonatos Nacionais. No final de 2013, contava com cerca de 900 associados; em 2020, superava os 11.000, representando mais de 120 associações em todo o país. A partir de 2023, com a integração plena no sistema de filiação da FPA, os atletas que pretendam participar nos circuitos e campeonatos nacionais passaram a filiar-se directamente na Federação. [R2][R3][R7][R31][R40]
Um marco da consolidação institucional foi a presença portuguesa no Campeonato do Mundo de Trail Running de 2015, em Annecy, França — a primeira vez que uma selecção nacional participou numa prova mundial da especialidade. Oito atletas foram seleccionados a partir dos circuitos nacionais de 2013 e 2014: Carlos Sá, Nuno Silva, Luís Mota e Hélder Ferreira (masculinos); Ester Alves, Júlia Conceição, Lucinda Sousa e Susana Simões (femininas). O estágio preparatório decorreu no Vale do Rossim, Serra da Estrela, organizado pela ATRP em parceria com Armando Teixeira e o Estrela Grande Trail. Este episódio marcou a passagem da ATRP de entidade organizadora interna para estrutura capaz de projectar uma selecção no palco internacional. [R62][R63][R64]
A consagração de Portugal como destino de trail running de referência veio com dois Campeonatos do Mundo realizados em solo nacional: em 2016, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, e em 2019, em Miranda do Corvo e na região das Aldeias do Xisto. Estes eventos atraíram atletas de dezenas de países, geraram cobertura mediática internacional e criaram impacto económico significativo nas regiões anfitriãs. O MIUT consolidou-se neste período: em 2015, foi aceite no Ultra Trail World Tour; em 2016, registou 2.041 participantes de 41 países; em 2017, bateu novo recorde com 2.490 participantes de 45 nacionalidades. [R10][R46]
O crescimento do número de provas é um dos indicadores mais expressivos da popularidade da modalidade. Em 2012, contavam-se cerca de 45 provas agendadas. Os dados de Carlos Fonseca documentam um crescimento de aproximadamente nove vezes entre 2009 e meados de 2010. Em 2015, a dissertação de mestrado da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril sistematizou a evolução dos participantes entre 2006 e 2015, a distribuição das provas por distrito e o perfil dos praticantes — tornando-se a fonte académica de base para compreender a primeira década de crescimento. Em 2018, o estudo de Julião, Valente e Mendes (CICS.NOVA/UNL) registou 68 corridas em 35 eventos no calendário oficial do continente. Em 2026, o calendário nacional conta com várias centenas de eventos anuais. [R41][R46][R47][R74]
Ao fim do primeiro ano de existência (Novembro de 2013), a ATRP contava com cerca de 1.000 associados em representação de mais de 90 clubes, tendo lançado o primeiro seguro desportivo individual adequado à modalidade e estabelecido os primeiros Circuitos Nacionais. Em Maio de 2014, tinha 1.500 associados e representava mais de 120 associações. Em 2020, o número ultrapassava os 11.000 — um crescimento de onze vezes em menos de oito anos. [R31][R40]
Em 2016, a FPA registava 14.542 atletas filiados. A modalidade cresceu de forma consistente, atingindo 19.439 em 2019. A pandemia interrompeu a trajectória: 2021 registou 17.396. A retoma foi vigorosa: 20.273 em 2022, 21.875 em 2023 e 23.835 em 2024, um crescimento de 61% face a 2016. Em 2024, dez associações regionais bateram recordes históricos, com Lisboa (3.504), Porto (2.792) e Madeira (2.137) à frente. [R7][R8]
Em 2014, os dados da ATRP apontavam para 85% de homens e 15% de mulheres — um desequilíbrio que reflectia as barreiras à participação feminina: tempo disponível, percepção de segurança nos trilhos, menor visibilidade de modelos de referência. Esta proporção evoluiu progressivamente. Os dados da FPA para 2023/2024 registam 61% de filiados masculinos e 39% femininos. Para o trail especificamente, a tendência aponta para participação feminina entre 25% e 35% na maioria dos eventos — uma evolução significativa: a participação feminina mais do que duplicou em termos relativos entre 2014 e meados da década de 2020. [R7][R8][R31]
A estrutura etária revela um perfil predominantemente adulto de meia-idade — padrão consistente com os desportos de ultra-resistência. Os escalões mais representados nas provas nacionais situam-se entre os 30 e os 49 anos. Os dados da FPA confirmam que os veteranos (a partir dos 35 anos) atingem 42% dos filiados — proporção em crescimento contínuo. O trail running é um dos poucos desportos onde a faixa dos 40–60 anos tem representação e competitividade desproporcionalmente elevada, porque a experiência, a gestão do sofrimento e o conhecimento do corpo compensam a perda de velocidade absoluta com a idade.
O estudo de Pereira, Palmeira, Carraça e colaboradores, publicado na PLOS ONE em 2021 a partir de uma amostra representativa de 1.068 adultos portugueses, constitui a primeira estimativa rigorosa da prática da corrida no país. Os resultados mostram que 10,6% dos adultos portugueses corriam regularmente — uma prevalência inferior à reportada em países como a Espanha (c. 23%) ou a Dinamarca (c. 30%), mas indicativa de um potencial de crescimento considerável. A prevalência era mais elevada nos homens (14,6% vs. 6,6%) e nos adultos mais jovens (13,6% vs. 7,7%). As principais motivações eram saúde geral (88%), auto-estima (63%) e sentido de vida (57%). O principal obstáculo identificado era a falta de tempo (43%). Para os 74% de portugueses adultos que não cumprem as recomendações da OMS de actividade física, estes dados sublinham o papel potencial do trail running nessa equação. [R72]
A prevalência de 10,6% em Portugal é inferior — não superior — à de Espanha (~23%) ou Dinamarca (~30%). Este dado documenta um potencial de crescimento, não uma posição de liderança. Versões anteriores inverteram esta comparação por erro; a correcção está aqui estabelecida com base na fonte primária [R72].
O MIUT é a prova de trail running portuguesa com maior projecção internacional continuada. Fundado em 2008 pelo Clube de Montanha do Funchal, cresceu de 141 participantes na primeira edição para 2.724 atletas de 52 países em 2019 — um crescimento de quase vinte vezes em onze anos. O percurso principal (115–118 km, mais de 6.000 m de desnível positivo) atravessa a ilha da Madeira de mar a mar, passando pelos pontos mais altos do arquipélago — Pico Ruivo (1.862 m) e Pico do Areeiro (1.818 m) — e pelas florestas de laurissilva classificadas como Património Mundial da UNESCO. Ao longo dos anos, o MIUT atraiu campeões mundiais como François D'Haene, Jim Walmsley, Courtney Dauwalter, Pau Capell e Katie Schide. [R10][R12][R13]
A Serra da Freita, em Arouca, é um dos territórios mais emblemáticos do trail nacional. A UTSF — fundada em 2006 por José Moutinho e Sálvio Nora, com Flor Madureira como figura central da logística —, com percursos que chegam aos 70 km, foi uma das primeiras a estabelecer padrões de organização de ultra trail em Portugal. Em 2020, Moutinho criou "As Voltas do Impossível" — a versão portuguesa da Barkley Marathon americana: 5 voltas a um percurso de 21 km, onde nenhum atleta ainda completou o desafio, e cujo eventual vencedor terá o nome gravado numa rocha de xisto. [R14]
Esta prova percorre troços da Via Nova Romana no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, combinando desafio físico com valorização do património histórico. É uma das provas portuguesas com maior densidade histórica: cada quilómetro é uma camada de tempo. [R15][R20]
O ACP (Atletismo Clube de Portalegre) organizou, a partir de 2012, o UTSM com percursos de ultra-distância que cruzam Portalegre, Castelo de Vide e Marvão, no território da Serra de São Mamede. A prova nasceu do impulso de João Carlos Correia, com a colaboração decisiva de Vitorina Mourato e da estrutura do ACP, a partir da experiência das "24 Horas a Correr" em Portalegre. Distinguiu-se pela exigência do terreno, pelo enquadramento histórico e natural do Alto Alentejo e por soluções organizativas pioneiras — incluindo o acompanhamento dos atletas posto a posto através de folhas partilhadas online. Em 2025, João Carlos Correia e Vitorina Mourato passaram o testemunho da direcção a Bruno Manuel Neves, mantendo-se ligados como voluntários. [R65][R66]
O AXtrail®series ocupa um lugar único na história do trail português: foi uma das primeiras iniciativas a conceber a corrida em trilhos como instrumento deliberado de desenvolvimento territorial. O projecto foi criado em Outubro de 2008 pela Go Outdoor, em parceria oficial com a rede das Aldeias do Xisto. Na memória comunitária da prova, os nomes de Fernando Pinto e Ana Quinta surgem como rostos fundadores e dinamizadores da fase pioneira. O circuito nasceu com uma prova inaugural que ligou as aldeias de Casal de São Simão e Ferraria de São João, na Serra da Lousã. [R67][R68][R75]
A aceitação foi imediata. Em 2012 nasceu o UTAX — Ultra Trail das Aldeias do Xisto (82 km), que cresceu até 109 km cruzando 4 municípios e 9 Aldeias do Xisto. Em 2014, a edição trouxe duas novidades: o AXtrail da Inclusão — a primeira corrida de joelettes organizada em Portugal — e o AXtrail Kids para jovens dos 6 aos 16 anos. O impacto económico era visível: o alojamento esgotava em horas, os produtos locais ganhavam visibilidade. Em Junho de 2019, Miranda do Corvo e a Associação Abútrica acolheram o Campeonato do Mundo de Trail Running, integrado na 9.ª edição do Ultra Trilho dos Abutres — reconhecimento de que as Aldeias do Xisto tinham construído, ao longo de mais de uma década, um dos territórios de trail mais credíveis do mundo. [R67][R68]
O Ultra Trilho dos Abutres concentra três dimensões raras: força comunitária, identidade territorial e consagração internacional. Organizado em Miranda do Corvo pela Associação Abútrica, tornou-se uma das provas mais desejadas do calendário nacional. A realização do Campeonato do Mundo de Trail Running de 2019 nos seus trilhos não foi um acidente: foi o reconhecimento de anos de trabalho na construção de uma geografia desportiva — trilhos duros, organização experiente, comunidade mobilizada. O nome de Vitorino Coragem, co-fundador dos Trilhos dos Abutres (1952–2020), pertence a esta história. A sua memória simboliza a dimensão silenciosa dos criadores de percurso: aqueles que não aparecem nos pódios mas que desenham os caminhos por onde a modalidade passa a existir.
O Louzantrail, frequentemente descrito pela comunidade internacional como "the mythical and toughest trail in Portugal", representa um dos mais exigentes testes do calendário nacional. A sua dureza não se mede apenas em quilómetros ou desnível: mede-se na combinação de trilhos técnicos, lama, floresta, inclinação e uma atmosfera quase iniciática. A Serra da Estrela, com provas como o Estrela Grande Trail, o Pastor Trail e o Oh Meu Deus, representa o eixo alpino do trail português: longas travessias, meteorologia incerta, altitude e uma relação intensa com a paisagem de alta montanha.
A maturidade da modalidade permitiu o surgimento de formatos não clássicos. As provas nocturnas transformam completamente a percepção da corrida: a luz frontal estreita o mundo, o som ganha importância, a familiaridade dos trilhos desaparece. O formato Backyard Ultra — importado da cultura americana de resistência, com uma volta de 6,7058 km por hora até restar um único corredor — chegou a Portugal com várias edições (Ficalho, Bracarvs, Ansião). É um formato psicologicamente devastador, mais próximo de uma experiência mental do que de uma corrida convencional, e a sua adopção em Portugal demonstra que a comunidade nacional entrou numa fase de experimentação criativa.
Nenhum atleta foi mais determinante para a popularização do trail running em Portugal do que Carlos Sá. Natural de Vilar do Monte (Barcelos), cresceu a trabalhar desde os 13 anos, abandonou o desporto durante anos de sedentarismo e regressou à corrida por um acto de decisão pessoal. Fez os primeiros passos no montanhismo nos Amigos da Montanha, com expedições ao Peru e planos para o Cho Oyu em parceria com o alpinista João Garcia. A descoberta do UTMB em 2006 mudou a direcção da sua carreira. [R22][R24][R25]
Os seus feitos são documentados e verificáveis: 5.º no UTMB em 2011, 4.º em 2012; 1.º no Campeonato de Portugal de Ultra Trail (MIUT, 2013); recorde mundial de ascensão ao Aconcágua em 2013 (15h42m, contra o anterior de 20h35m); vitória na Badwater Ultramarathon (217 km, Vale da Morte) em 2013, tornando-se o primeiro português a ganhar essa prova; 2.º em equipa no Marathon des Sables em 2016; 4.º no Tor des Géants (330 km) em 2017. A sua mensagem de superação pessoal ressoou num Portugal em crise económica (2010–2015), inspirando milhares de pessoas a descobrir os trilhos.
| Ano | Prova | Resultado |
|---|---|---|
| 2008 | Ultra Trail da Geira Romana (45 km) | 2.º absoluto |
| 2009 | Ultra Trail da Geira Romana | 1.º absoluto |
| 2010 | Grand Raid des Pyrénées (160 km / 20.000 mD+) | 1.º absoluto |
| 2011 | UTMB (170 km) | 5.º geral — 22h48m |
| 2012 | UTMB (170 km) | 4.º geral |
| 2012 | Marathon des Sables (250 km) | 4.º / melhor europeu |
| 2013 | MIUT — 1.º Campeão Nacional Ultra Trail | 1.º absoluto |
| 2013 | Aconcágua — Recorde Mundial ascensão+descida | 15h42m (anterior: 20h35m) |
| 2013 | Badwater Ultramarathon (217 km, Vale da Morte) | 1.º absoluto — 24h38m |
| 2014 | Marathon des Sables | 4.º lugar |
| 2016 | Marathon des Sables | 2.º em equipa / 8.º individual |
| 2017 | Tor des Géants (330 km, Itália) | 4.º lugar |
Armando Teixeira começou a correr aos 33 anos e representa o arquétipo do atleta de ultra trail que chegou à modalidade pela transformação pessoal. Ex-técnico de alta tensão, deixou a profissão para se dedicar ao desporto e à formação académica (Pós-Graduação em Trail Running no IPVC). É descrito pelos seus pares como referência do trail em Portugal. Capitão de equipa em dois Campeonatos do Mundo consecutivos (2016 e 2018), foi nomeado Selecionador Nacional de Trail Running em 2024. Através da empresa Armando Teixeira Outdoor Events, co-organiza o Estrela Grande Trail em Manteigas. O seu treinador foi, durante anos, Paulo Pires.
O trail running português foi nos seus primeiros anos de maioria masculina esmagadora. Contudo, as atletas femininas que emergiram neste contexto foram de excepcional qualidade. Flor Madureira, Cármen Henriques, Cristina Moura, Raquel Campos, Paula Soares, Fátima Buchas, Margarida Bagão e Ester Alves-Santos marcaram o trail feminino nacional, competindo com distinção em provas nacionais e internacionais. Vitorina Mourato, campeã feminina do 1.º Campeonato Nacional de Corridas de Montanha em 1998 e co-fundadora da UTSM, pode ser considerada a primeira heroína desportiva desta genealogia.
A história das mulheres no trail português não se reduz ao papel de atletas. Flor Madureira é a organizadora que tornou a UTSF possível durante quase duas décadas. Vitorina Mourato foi co-criadora de uma das provas mais importantes do interior português. O registo das mulheres como fundadoras, dirigentes e criadoras de comunidade é um trabalho historiográfico ainda por completar — mas a sua ausência dos documentos históricos é uma lacuna, não um reflexo da realidade.
Jorge Serrazina, natural de Óbidos, começou a correr aos 47 anos por convite de um vizinho e inscreveu-se na sua primeira prova — 17 km na Serra dos Candeeiros — com apenas meia dúzia de treinos. Nos anos seguintes, escalou sistematicamente as distâncias: Everest Trail Race (Nepal, 160 km/25.000 mD+, 7.º geral/1.º M50+ em 2014), Grand Raid des Pyrénées (866 km, 17 dias), Marathon des Sables (Saara, 2022), múltiplas participações no Tor des Géants (330 km). Em 2019, correu 301 km do Tor des Glaciers (450 km, 37.000 mD+) antes de ser hospitalizado com rotura no duodeno — regressou a Portugal com menos 10 quilos e já planeava o próximo desafio. É sócio ATRP n.º 20.
"Foi sem esperar, há 11 anos, quando um vizinho me convidou para dinamizarmos uma secção de atletismo em Óbidos... Porque entendi que não devia fazer parte de uma secção sem que, também eu próprio corresse, comecei a fazer uns treinos."
— Jorge SerrazinaA história da modalidade ficaria incompleta se fosse contada apenas através dos atletas de elite. José Moutinho representa a matriz fundadora do trail moderno em Portugal. Flor Madureira representa o trabalho logístico sem o qual as grandes provas não sobrevivem. Vitorino Coragem representa os criadores de percurso — aqueles que não aparecem nos pódios mas traçam os caminhos. Tiago Araújo e a Associação Abútrica representam a capacidade de uma comunidade local construir um evento de dimensão mundial. João Lima e Carlos Fonseca representam a preservação da memória estatística. Eduardo Santos representa a criação de comunidade digital antes das redes sociais.
Entre os treinadores, Paulo Pires (FADEUP) foi determinante pela ligação a Carlos Sá e pela introdução de uma metodologia de treino de base aeróbia com controlo por frequência cardíaca e preparação estratégica para ultra trail. A sua criação dos Treinos Lunares — corridas nocturnas realizadas em torno da lua cheia, abertas a todos — foi um fenómeno de comunidade que antecipou a cultura inclusiva do trail. João Mota (sócio ATRP n.º 7, fundador da Strendure) representa a ligação entre construção institucional, treino estruturado e comunidade de endurance amadora.
O trail running impõe ao organismo exigências fisiológicas radicalmente diferentes das corridas de estrada. As mudanças constantes de ritmo e inclinação activam padrões musculares complexos, recrutando músculos estabilizadores e proprioceptivos. O quadricípite, os isquiotibiais e os músculos peroneais sofrem exigências excêntricas intensas nas descidas. Nos ultra trails, adicionam-se a fadiga metabólica cumulativa, a deplecção de glicogénio, o risco de hiponatremia (diluição perigosa do sódio no sangue por ingestão excessiva de água sem reposição de sais — um risco real que pode provocar edema cerebral e coma, e que paradoxalmente resulta de beber demasiado) e a degradação do desempenho cognitivo por privação de sono. Gerir estas variáveis é tão determinante como a capacidade física pura. [R48]
A investigação portuguesa inclui a tese de doutoramento da Universidade do Porto "The Portuguese Trail Runner" (perfil músculo-esquelético, fisiológico e neuromuscular dos praticantes nacionais) e o estudo fisiológico comparativo entre trail runners nacionais e regionais publicado em parceria entre ESTeSC-IPC, FADEUP e parceiros brasileiros. Paulo Pires estabeleceu também parceria com o Departamento de Desporto da UP para estudar o metabolismo de Carlos Sá em condições extremas — um dos primeiros estudos fisiológicos académicos dedicados a um trail runner português de elite. [R48]
A busca de contacto com a natureza é invariavelmente a motivação mais citada pelos trail runners, seguida do desafio pessoal, da melhoria da saúde e da escapatória ao stress quotidiano. A expressão "completar é vencer" é reveladora: o trail coloca o processo acima do resultado, tornando-o genuinamente democratizante. As provas de ultra trail — especialmente as de 100+ km em 24–48 horas — criam estados alterados de consciência que os praticantes descrevem como meditação em movimento, fusão com a natureza ou acesso a dimensões interiores normalmente inacessíveis. A investigação em psicologia do desporto sugere que a exposição controlada ao sofrimento físico pode desenvolver resiliência, tolerância à frustração e capacidade de gestão do caos transferíveis para a vida quotidiana.
"O trail running, para mim, é um estado de espírito. Tenho dificuldade em explicar isto a muitas pessoas. É quase uma simbiose entre nós e a natureza, como se me juntasse a ela."
— Cristina Ponte, praticanteA nutrição para trail running evoluiu de forma dramática. Nos primeiros anos, os atletas improvisavam com o que havia nos postos de abastecimento — sopas, fruta, pão — e bebiam água das fontes das serras. Com a chegada de investigação específica, a nutrição tornou-se uma ciência aplicada: protocolos precisos de ingestão calórica por hora, cálculo de necessidades de sódio e electrólitos, gestão cuidadosa da hidratação para evitar tanto a desidratação como a hiperidratação. A criatividade culinária dos postos de abastecimento das provas nacionais — caldo verde quente a meio da noite, canja, batata cozida com sal, queijos da Serra da Estrela — é um dos aspectos culturalmente mais ricos da experiência de participar num trail português. Esta dimensão gastronómica é, ao mesmo tempo, uma embaixada improvisada da cultura alimentar das regiões atravessadas.
A história do equipamento de trail running é, em larga medida, a história do calçado. Marcas como Salomon, Hoka One One, Inov-8, La Sportiva e Merrell responderam ao crescimento da modalidade com calçado específico que combina aderência, protecção e leveza — de modelos de 400–500g para actuais abaixo dos 200g com protecção completa. O relógio GPS democratizou-se: de luxo reservado a profissionais passou a equipamento standard a 150–200€. Plataformas como Strava, Garmin Connect e Wikiloc criaram ecossistemas de dados que transformaram os padrões de treino: antes do GPS, um trail runner preparava-se "a olho"; depois do GPS, prepara-se com dados. O Strava, adoptado amplamente pela comunidade portuguesa a partir de 2012–2013, não é apenas uma ferramenta: é uma rede social que criou novos comportamentos, competições informais e até formas de conhecer grupos de treino.
O trail running português foi inteiramente construído por voluntários nos seus primeiros anos. Com o crescimento, algumas provas e organizações atingiram uma escala que exigiu profissionalização: equipas técnicas, orçamentos de dezenas ou centenas de milhar de euros, estruturas de segurança com médicos e helicópteros. Carlos Sá foi o primeiro atleta a conseguir um patrocínio (Berg Outdoor) que lhe permitiu dedicar-se à modalidade a tempo inteiro. A integração do trail na FPA em 2023 foi um marco institucional, não isento de tensões: parte da comunidade que sempre valorizou a informalidade e a independência da modalidade viu com reserva a "atletização" do trail. A ATRP manteve-se como entidade relevante, num modelo de co-gestão com a FPA que procura equilibrar rigor regulatório e liberdade associativa. [R2][R3][R7]
Uma das dimensões mais significativas do trail running em Portugal é o impacto no desenvolvimento dos territórios de baixa densidade. Provas em concelhos do interior — Marvão, Miranda do Corvo, Mondim de Basto, Vila Pouca de Aguiar, Terras de Bouro — atraem centenas ou milhares de visitantes que normalmente não teriam motivo para visitar estas regiões. O impacto económico é real: dormidas, refeições, compras em comércio local. Mas o impacto vai além: o trail devolve visibilidade e dignidade a territórios que a narrativa nacional tende a ignorar.
O crescimento massivo do trail colocou questões sérias sobre impacto ambiental. Estudos académicos demonstraram que a pressão sobre zonas protegidas — Sintra, Serra da Lousã, Serra d'Arga — podia gerar erosão de trilhos, compactação do solo e perturbação da fauna. A resposta do sector foi a adopção progressiva de códigos de boas práticas: limitação de participantes por prova, certificação de percursos, copo reutilizável obrigatório, proibição de lixo nos percursos. Muitos organizadores criaram iniciativas de compensação ambiental — plantações de árvores, limpezas de trilhos, parcerias com organizações de conservação. [R51][R52]
Portugal tem uma das mais ricas concentrações de património arqueológico da Península Ibérica. O trail nacional atravessa-o frequentemente: a Via Nova Romana (Geira), o sítio arqueológico de Conímbriga, os antas megalíticos do Alentejo, os castros do noroeste, as levadas da Madeira. O Trail de Conímbriga percorre literalmente o maior sítio arqueológico romano de Portugal. Esta dimensão arqueológica é singular à escala europeia: correr pelos caminhos que os romanos construíram, passar ao lado de miliários com 2.000 anos, atravessar aldeias medievais — o trail transforma-se em arqueologia viva, numa viagem no tempo que nenhum museu pode replicar.
O trail português desenvolveu uma dimensão de inclusão relevante. A criação do AXtrail da Inclusão — primeira corrida de joelettes em Portugal — demonstrou que o modelo pode incorporar pessoas com mobilidade reduzida. Provas com distâncias curtas (10–15 km) e caminhadas em paralelo permitiram que pessoas de condições físicas muito diferentes participassem no mesmo evento. A dimensão intergeracional — provas Kids para crianças e categorias veteranas para atletas acima dos 60 e 70 anos — cria eventos onde avós e netos partilham a linha de chegada.
Nenhuma prova de trail acontece sem voluntários. Esta frase não é uma cortesia — é uma verdade estrutural.
Um evento como o MIUT mobiliza centenas de pessoas que trabalham 24–48 horas ininterruptas: montam postos de abastecimento em lugares inacessíveis de madrugada, marcam e retiram centenas de quilómetros de trilho, servem caldo verde quente às três da manhã, comunicam com equipas de resgate, confirmam dorsais, acompanham atletas em crise, limpam o percurso no dia seguinte. Alguns fazem-no há dez, doze, quinze anos consecutivos. Nunca aparecem nas classificações, raramente nas crónicas e quase nunca nos documentos históricos. A história do trail português estará sempre incompleta se estas pessoas continuarem invisíveis.
A sociologia do voluntariado no trail é mais complexa e mais rica do que seria de esperar. Muitos voluntários são ex-atletas que, por lesão ou problema de saúde, deixaram de poder correr mas não conseguiram abandonar a comunidade: encontraram nesta forma de participação o seu lugar. Outros são familiares de atletas que acompanharam cônjuges ou filhos a provas durante anos e passaram a fazer parte do evento de uma forma activa. Outros ainda são pessoas que nunca correram um trail mas se identificam com os seus valores — honestidade, generosidade, esforço colectivo — e encontraram no voluntariado uma expressão prática desses valores.
Esta diversidade é, ela própria, um documento sociológico. O trail criou uma comunidade onde o contributo não precisa de ser competitivo para ser reconhecido. Onde o posto de abastecimento às três da manhã tem tanto valor como a primeira posição na linha de chegada. Esta cultura de reconhecimento mútuo — que a maioria dos desportos de alto rendimento não consegue criar — é uma das características mais originais da modalidade.
A economia do trail running português não pode ser compreendida sem considerar o voluntariado. Se as horas de todos os voluntários de uma prova de média dimensão fossem remuneradas ao salário mínimo, o custo de organização seria 2 a 3 vezes o actual. O voluntariado funciona, portanto, como um subsídio invisível à viabilidade do trail de pequena e média dimensão em Portugal — e por extensão, à democratização da modalidade. Sem voluntários, o trail seria um desporto de elites financeiras. Com eles, é uma experiência acessível a qualquer pessoa que se inscreva.
Este dado tem implicações práticas para o futuro da modalidade. À medida que o trail se profissionaliza e as provas crescem em escala, a pressão sobre o modelo de voluntariado aumenta. A sustentabilidade do trail português dependerá, em parte, da capacidade de reconhecer e nutrir esta base de participação gratuita — e de a articular de forma justa com os modelos de profissionalização que inevitavelmente chegam.
Os postos de abastecimento têm as suas próprias histórias — histórias que nunca aparecem nas crónicas de prova mas que os atletas que estiveram lá nunca esquecem. A pessoa que esperou pelo último corredor às seis da manhã, na chuva, com uma tigela de canja quente. O voluntário que reconheceu que um atleta estava em hipotermia antes que o próprio atleta o percebesse, e que chamou os serviços de emergência a tempo. O grupo de vizinhos de uma aldeia do Gerês que montaram um posto de abastecimento informal, sem fazerem parte da organização, porque queriam contribuir. Estes episódios são a história real do trail português — e merecem tanto espaço no registo histórico como as conquistas internacionais dos atletas de elite.
Este capítulo é a lacuna histórica mais urgente do documento. Para a próxima versão: identificar voluntários com 10 ou mais anos de participação ininterrupta em provas como o MIUT, a UTSF, o UTSM e o AXtrail; recolher testemunhos directos de coordenadores de voluntários; quantificar o valor económico do voluntariado como "subsídio invisível" ao modelo financeiro das provas nacionais.
O trail running português cresceu de baixo para cima. Antes das grandes marcas, dos circuitos internacionais e das redes sociais, existiu um ecossistema amador que fez quase tudo: registou resultados, criou calendários, escreveu crónicas, fotografou provas, organizou treinos e transmitiu conhecimento por generosidade. Sem este ecossistema, o boom de 2012–2016 não teria tido a escala que atingiu — porque não haveria comunidade pronta para o receber.
João Lima criou e manteve durante décadas o mais completo arquivo de resultados de provas portuguesas. O sítio joaolima.net/Provas.htm lista resultados desde 1910 até 2020 — 2.783 provas, 12.741 vencedores registados, 10.376 classificações completas em PDF. Para o trail, o arquivo de João Lima é uma fonte de memória histórica preciosa: permite rastrear os vencedores das primeiras corridas em montanha e identificar atletas que transitaram do atletismo de estrada para o trail. É um testemunho do voluntarismo intelectual na preservação da memória desportiva portuguesa. [R73]
Carlos Fonseca criou e manteve o portal de atletismo e trail running mais referenciado da comunidade, com a definição de trail running, o sistema de categorização de provas adoptado pela ATRP e as 10 dicas para o primeiro trail. Foi também Carlos Fonseca quem compilou o calendário que permitiu documentar o crescimento de nove vezes no número de eventos entre 2009 e meados da década de 2010 — o dado estatístico mais citado sobre o crescimento da modalidade em Portugal. [R74]
Os blogs foram a literatura espontânea do trail. Neles aparecem as descrições que nunca cabem nas classificações: o medo antes da partida, a solidão nocturna, as bolhas, o frio, o abraço final, o humor dos abastecimentos. dorsal1967 (Luís Matos Ferreira) é exemplo de blog que cruza trail, ultra endurance, ciência e reflexão existencial — o seu arquivo documenta mais de uma década de 100 milhas. CorrerPorPrazer (Vítor Dias), fundado em 2008, tornou-se o site de corrida mais visitado de Portugal, com calendários, artigos e uma lista de mais de 100 grupos de corrida. Corremais (Paulo Pires) registou os Treinos Lunares — corridas nocturnas na lua cheia, abertas a todos, que foram um fenómeno de comunidade antes das redes sociais. RunPortugal (Eduardo Santos) foi o successor do fórum "O Mundo da Corrida" e a newsroom informal da modalidade nos seus anos de formação.
Esta blogosfera não foi apenas comentário. Foi pedagogia, memória e identidade: muitos atletas aprenderam a preparar a sua primeira prova longa lendo crónicas de pessoas que tinham sofrido antes deles. A posterior migração para Facebook, Instagram, WhatsApp e Strava não apagou este primeiro ecossistema — ampliou a sua lógica.
Os clubes e grupos de treino foram a infraestrutura social da modalidade. O Monsanto Running Team (MRT), fundado em 2011 quando sete amigos começaram a treinar juntos no Parque Florestal de Monsanto, tornou-se um dos maiores e mais emblemáticos clubes de trail de Lisboa. Em 2013, os treinos tornaram-se diários (segunda a sexta, das 6h às 7h), recebendo o nome icónico de "A Hora do Esquilo" — treinos realizados quando a família ainda dorme, numa frase que contém toda uma sociologia da conciliação entre paixão desportiva e vida familiar. O presidente Didier Valente explicou a filosofia: treinar antes de a família acordar para não criar conflito entre a paixão e as responsabilidades. José Carlos Santos, fundador da ATRP, é atleta do clube — o que confere ao MRT uma ligação directa à história institucional da modalidade.
Os Porto Runners foram um dos primeiros clubes a participar activamente no AXtrail (2009–2010), com crónicas detalhadas que constituem hoje documentos históricos da fase pioneira. Os Amigos da Montanha de Barcelos (fundados em 1999), com ligação directa a Carlos Sá, organizaram em 2010 o inaugural Ultra Trail Amigos da Montanha — com a inovação única de uma travessia de rio em kayak ao km 45. O Trail da Salamandra de Sintra (treinos nocturnos às quintas-feiras, trilhos do Parque Natural) foi um dos espaços formativos onde muitos atletas que viriam a representar Portugal em campeonatos mundiais fizeram as suas primeiras armas.
O RUN 4 FUN, fundado em 2007 com núcleos em Lisboa/Almada, representa a visibilidade e o impacto dos clubes não profissionais: combinação de treino, convívio, participação regular em provas e produção de memória através do seu blogue — um exemplo de como os clubes amadores deram massa crítica, continuidade e identidade social ao trail português. [R69][R70][R71]
Com o crescimento da modalidade, a investigação académica acompanhou: a tese de doutoramento da Universidade do Porto sobre o perfil do trail runner português (lesões músculo-esqueléticas, características morfológicas, fisiológicas e neuromusculares); o estudo fisiológico comparativo publicado no PMC entre ESTeSC-IPC, FADEUP e parceiros brasileiros; a dissertação de mestrado da ESHT do Estoril sobre trail running como produto turístico (com dados históricos únicos de 2006 a 2015); e o estudo de Julião, Valente e Mendes da CICS.NOVA sobre espaços naturais e trail running em Portugal (2018). Esta base académica, ainda em construção, é o que distingue uma história documentada de uma narrativa comunitária. [R46][R47][R48]
A galeria seguinte reúne figuras que representam funções diferentes na história do trail running português: pioneiros, atletas de elite, organizadores, treinadores, arquivistas, atletas veteranos e cronistas da comunidade. Não é exaustiva — é representativa de um colectivo de autoria distribuída que construiu esta modalidade.
| Nome | Cat. | Papel | Marca distintiva |
|---|
Os incêndios florestais de Junho e Outubro de 2017 foram a maior catástrofe florestal da história portuguesa moderna, destruindo mais de 500.000 hectares e causando mais de 100 mortes. Para a comunidade de trail running, representaram algo mais específico: a destruição de territórios que eram ao mesmo tempo cenários de prova, espaços de treino e paisagens de identidade. A Serra da Lousã, o Caramulo, a Serra da Freita, a Serra de Montemuro — o coração do trail do centro de Portugal — foram severamente atingidos. Trilhos históricos de provas como o AXtrail/UTAX, o Louzantrail e a Ultra Trail Serra da Freita foram destruídos ou severamente danificados.
A relação entre os incêndios e as provas de trail foi directa e imediata. Vários eventos foram cancelados, alterados ou relocalizados. Alguns percursos, construídos ao longo de anos de trabalho de marcação e conhecimento do terreno, desapareceram no espaço de horas. Os organizadores viram-se confrontados com uma realidade para a qual nenhum regulamento os preparara: como gerir a continuidade de um evento quando o território que lhe dava sentido estava em cinzas.
Para além da dimensão logística, houve uma dimensão emocional que a literatura de trail não costuma documentar. Muitos atletas e organizadores cresceram nesses territórios — ou aprenderam a amar Portugal através deles. Ver a Serra da Lousã em cinza, percorrer trilhos que eram floresta e agora são eucaliptos queimados, é uma experiência de luto que a comunidade processou de formas variadas: raiva, silêncio, acção.
"Ver a Serra da Lousã em cinza, percorrer trilhos que eram floresta e agora são eucaliptos queimados, é uma experiência de luto que a comunidade processou de formas variadas: raiva, silêncio, acção."
— Trail Running em Portugal: História Completa v3A resposta do trail running aos incêndios não foi apenas logística. Clubes e organizações mobilizaram-se para acções de reflorestação e limpeza: os Amigos da Montanha de Barcelos através do projecto BiodiverCidade; organizadores do AXtrail e do Louzantrail com iniciativas de recuperação de trilhos; grupos de trail de todo o país com jornadas de voluntariado ambiental. Esta resposta revelou uma dimensão do trail português que as classificações e os regulamentos não captam: a consciência de que a modalidade depende da saúde dos territórios onde se pratica, e que essa saúde é responsabilidade partilhada.
Os incêndios tornaram impossível ignorar uma questão que estava presente há décadas: a monocultura do eucalipto. Portugal tem mais de 800.000 hectares de eucaliptos — a maior proporção em relação à superfície total de qualquer país europeu. As florestas de eucalipto criam uma paisagem empobrecida em biodiversidade, altamente vulnerável ao fogo, que não oferece sombra eficaz, polui cursos de água com os seus taninos e cria um sub-bosque árido. Para o trail running, a questão é existencial: que serras queremos correr daqui a vinte anos? O futuro do trail em várias regiões do centro de Portugal dependerá não de calendários e inscrições, mas da qualidade ecológica das serras onde se corre.
Alguns organizadores e praticantes tornaram-se, por esta razão, activistas ambientais. A ATRP adoptou um código de boas práticas que inclui considerações ambientais. A discussão sobre a política florestal portuguesa tornou-se um tema recorrente nos fóruns e nas redes sociais da comunidade trail. A modalidade que depende da natureza começou, depois de 2017, a perceber que depender não é suficiente — que é preciso intervir.
Este capítulo é um esboço. Para a próxima versão: documentar as provas específicas canceladas ou alteradas em 2017 e 2018; recolher testemunhos de organizadores afectados (Confraria Trotamontes, Go Outdoor/AXtrail, Louzantrail); registar os projectos de recuperação de trilhos com datas e resultados concretos; entrevistar representantes das comunidades locais afectadas.
Os momentos-chave da história do trail running em Portugal, com indicação de fontes. As datas sem fonte confirmada são assinaladas como aproximadas.
| Indicador | Valor | Notas |
|---|---|---|
| Total de provas arquivadas | 2.783 | Provas portuguesas de 1910 a 2020 |
| Vencedores registados | 12.741 | Registo masculino e feminino |
| Classificações completas | 10.376 PDFs | Arquivo histórico de resultados |
| Ano | Participantes | Nota histórica |
|---|---|---|
| 2008 | 141 | 1.ª edição — Ponta do Pargo a Machico |
| 2009 | 82 | 2.ª edição — partida passa para Porto Moniz |
| 2010 | Não realizado | Incêndios florestais na Madeira |
| 2011 | 128 | Retoma após interrupção |
| 2012 | 303 | Crescimento regional e nacional |
| 2013 | 449 | Campeonato de Portugal de Ultra Trail |
| 2014 | 749 | Consolidação |
| 2015 | 1.329 | Entrada no UTWT; 36 países |
| 2016 | 2.041 | Integrado no UTWT; 41 países |
| 2017 | 2.490 | 45 países |
| 2018 | 2.487 | 55 países |
| 2019 | 2.724 | 52 países — inscrições esgotam em 17 horas |
| Ano | Finishers | Vencedor masculino | Vencedora feminina |
|---|---|---|---|
| 2013 | 106 | André Rodrigues (Ind.) | Glória Serrazina (Ribafria) |
| 2014 | 154 | André Rodrigues (Juv. Vidigalense) | Daniela Marinheiro (EDP Lisboa) |
| 2015 | 227 | Diogo Fernandes (Dr. Merino) | Natércia Silvestre (Ind.) |
| 2016 | 253 | André Rodrigues (Dr. Merino/Nutrifit) | Sara de Brito (Barreira) |
| 2017 | 308 | Hélio Fumo (EDV Viana Trail) | Mary Vieira (Dr. Merino/4Moove) |
| 2018 | 307 | Nuno Silva (Trail Team Bifase) | Paula Barbosa (Oralklass) |
| 2019 | 187 | Nelson Santos (Dão Nelas Runners) | Vera Bernardo (Venda da Luísa) |
| 2020 | 96 | Nelson Santos (Runners do Demo) | Paula Almeida (Ind.) |
| Ano | Finishers | Vencedor masculino | Vencedora feminina |
|---|---|---|---|
| 2014 | 17 | Óscar Pérez López (Ind.) | Ana Duarte (Falcões Selvagens) |
| 2017 | 106 | Jérôme Rodrigues (EDV Viana Trail) | Rosario Sanchez (Salamanca Raids) |
| 2018 | 74 | Francisco Fernandes (Águias de Alvelos) | Mariana Ballester (Ind.) |
| 2019 | 143 | Bruno Sousa (Trail Team Bifase) | Sofia Roquete (Arrábida Trail Team) |
| Período | Caracterização | Marcos |
|---|---|---|
| 1998–2005 | Base inicial | Campeonatos FPME, corridas de montanha, provas pioneiras |
| 2006–2008 | Introdução do trail moderno | UTSF, MIUT, Geira, primeiros ultra trails |
| 2009–2012 | Crescimento acelerado | Carlos Sá internacional, blogs, fóruns, fundação da ATRP |
| 2013–2015 | Estruturação competitiva | Circuitos ATRP, MIUT no UTWT, 1.ª selecção nacional |
| 2016–2019 | Internacionalização | Dois Mundiais em Portugal, MIUT com mais de 2.000 atletas |
| 2020–2026 | Maturidade e regulação | Pandemia, integração federativa, novos formatos, sustentabilidade |
O trail running em Portugal em 2026 é uma modalidade madura, com estrutura organizativa sólida, base de praticantes alargada e posição consolidada no panorama desportivo nacional e internacional. As tendências identificadas incluem a crescente integração tecnológica (análise de dados de treino com inteligência artificial, realidade aumentada para navegação em trilhos), o aprofundamento das preocupações de sustentabilidade ambiental e a continuação do crescimento da participação feminina.
Os principais desafios incluem: a gestão do impacto ambiental em áreas protegidas; o equilíbrio entre a democratização da modalidade e a preservação da sua essência de aventura; a prevenção e gestão de riscos de segurança em provas de longa distância; e a sustentabilidade financeira de um sector com muitas provas de pequena dimensão e base voluntária. A questão climática é crescentemente urgente: com verões cada vez mais quentes, provas de Junho a Setembro já enfrentam riscos de temperatura extrema, e a adaptação dos calendários e percursos é um desafio que não pode ser adiado indefinidamente.
| Tema | Prioridade | O que falta |
|---|---|---|
| Voluntários — histórias com nome e rosto | Muito alta | Entrevistas; testemunhos de coordenadores; valor económico do voluntariado |
| Incêndios de 2017 — impacto documentado | Muito alta | Provas canceladas; trilhos destruídos; resposta das organizações |
| Mulheres organizadoras e dirigentes | Alta | Fundadoras de provas, líderes de clubes, criadoras de estruturas |
| Histórias de transformação pessoal | Alta | Três ou quatro histórias concretas com nome e rosto |
| Economia real do trail | Alta | Receitas, custos, modelo dos pequenos eventos, valor do voluntariado |
| Plataformas de inscrição online — pioneiros | Alta | Acorrer, Lap2Go, All4Running, Stop&Go — fundadores e histórias |
| Fotografia e cultura visual | Alta | Jorge Brás e outros; a estética que construiu a identidade do trail português |
| Conflitos ATRP/FPA — história honesta | Alta | Pontos de fricção, interesses em jogo, protagonistas, resolução |
| Primeiras lojas especializadas | Média | 4Run Lisboa e homólogos; economia do equipamento |
| Trail e alterações climáticas | Alta | Impacto nos trilhos, adaptação dos calendários, compromissos de sustentabilidade |
A história do trail running em Portugal é a história de uma paixão colectiva que emergiu do encontro entre a tradição de andar na montanha e a modernidade de um desporto global. Começou nos anos 1990 com as corridas em montanha organizadas pela FPME, tomou forma própria com as primeiras ultra trails no início dos anos 2000, explodiu em popularidade na primeira metade da década de 2010, e consolidou-se como uma das modalidades desportivas mais vibrantes e significativas do país.
É também a história de homens e mulheres que encontraram nos trilhos portugueses — nas serras do Gerês e da Freita, nos caminhos romanos da Geira, nas levadas da Madeira, nas caldeiras dos Açores — uma forma de ser mais inteiros, mais livres, mais vivos. A modalidade tocou dimensões profundas da identidade portuguesa: a relação ancestral com a terra, a resistência perante a adversidade, o valor do esforço colectivo.
Mas a história completa não pode ser contada apenas através dos atletas e das provas. Precisa dos voluntários que esperaram pelo último corredor às seis da manhã. Dos bloguistas que escreveram as primeiras crónicas quando ninguém prestava atenção. Dos arquivistas que guardaram os resultados quando ainda não havia instituição capaz de o fazer. Das mulheres que organizaram provas e lideraram clubes sem aparecerem necessariamente nas capas. Das comunidades locais que abriram as suas aldeias a milhares de corredores desconhecidos. Das serras que arderam e que a comunidade foi ajudar a recuperar.
O trail running em Portugal não é apenas um desporto. É um fenómeno cultural, social, económico e territorial — uma forma de estar em Portugal que cada vez mais portugueses escolhem, e que cada vez mais o mundo vem descobrir.
"A história do trail running em Portugal é, no fundo, a história de uma comunidade que aprendeu a correr para dentro do país — e, muitas vezes, para dentro de si própria."
Todas as fontes foram consultadas entre Abril e Maio de 2026. URLs activas na data de consulta. Fontes académicas via RCAAP, Repositório UNL e Repositório UP.